A voz de uma pessoa comum pode mudar alguma coisa no mundo?

Em um mundo de bilhões de pessoas, como uma voz comum encontra sua brecha? Um ensaio sobre autenticidade, algoritmo, escuta e coragem.

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Pessoa diante de uma grande muralha de pedra aberta por uma brecha iluminada pelo sol.
Uma brecha na muralha: a passagem que se abre quando uma voz encontra quem esteja disposto a escutá-la.

Eu sei que você vai me responder que sim.

Eu também pensei nessa mesmíssima resposta quando me fiz essa pergunta.

Mas, se você for agora mesmo gritar na sua janela, fizer um post aleatório numa rede social qualquer ou tentar mudar o modo de pensar da sua família no grupo do celular... a sua voz vai mudar alguma coisa de fato?

Pois é.

É aqui que saímos do senso comum e começamos a lidar com a frustração de sermos apenas uma única pessoa nesse mundão.

O tal mundão é constituído de bilhões de pessoas. Segundo o Worldometer, somos cerca de 8,3 bilhões em setembro de 2026, enquanto escrevo este texto.

E você, assim como eu, é uma só pessoa dentro desses bilhões.

O problema não é o “uma”. O problema tá no “só”

O “só” é a brecha.

Brecha é uma palavra de sonoridade horrorosa, né? Mas, para o dicionário, brecha significa também lacuna.

Daí lacuna vira um espaço vazio.

E é assim que me sinto quando penso em falar, escrever ou ensinar algo para esse mundão de gente.

“Afinal, por que falar alguma coisa se eu sou só uma pessoa?”

Sinto que minha voz ou minhas ideias ecoarão no vazio. Um vazio lotado de gente, mas ainda assim um vazio.

Sou professor de tarot. Sou cartomante. Atendo pessoas com as cartas desde os anos 1990. Profissionalmente, desde 2006. Dou aulas em minha própria escola de tarot, a Aurora, desde 2017. Faço conteúdo na internet desde 2020. E, mesmo assim, ainda me deparo com a sensação de estar falando no vazio.

Havia pessoas procurando minha voz

Enquanto escrevia este texto, abri as notificações do meu canal no YouTube. Uma pessoa dizia que havia conhecido meu trabalho recentemente e que eu já a tinha ajudado muito. Outra me pedia que voltasse porque procurava e procurava, mas não encontrava ninguém que ensinasse de forma tão extensa e realmente explicasse as coisas.

Mais abaixo, alguém havia escrito simplesmente:

“Que saudades, Profe, das aulas.”

Fiquei algum tempo olhando para aquelas mensagens.

Enquanto eu escrevia sobre o medo de minha voz ecoar no vazio, do outro lado da tela havia pessoas procurando por ela.

Talvez o vazio não estivesse na falta de ouvidos. Talvez estivesse no espaço que deixei quando parei de falar com tanta frequência.

Toda voz precisa encontrar sua brecha

O que faz com que algumas vozes ecoem com força em meio a tanta gente?

O que elas fizeram para que fossem ouvidas?

A resposta é que cada uma delas encontrou a sua brecha.

E aqui a língua portuguesa é incrível. Se, num primeiro sentido, brecha é lacuna e espaço vazio, a mesma palavra também pode assumir um sentido positivo. “Abrir uma brecha” é abrir um caminho possível, ainda que pequeno e apertado.

Encontrar uma oportunidade é “encontrar uma brecha”.

Brecha é como uma carta de tarot: dependendo da posição, fica positiva ou negativa.

Uma nota extra: “brecha” vem do francês brèche, de significado similar. Être sur la brèche pode significar “trabalhar intensamente; estar no batente”. A expressão preserva uma antiga imagem de combate: alguém diante de uma abertura na muralha, em posição de agir.

É aqui que percebo que encontrar uma brecha para fazer sua voz ser ouvida exige de nós uma determinação quase militar.

As brechas que quase ninguém quer ocupar

Muita gente quer falar. Pouca gente quer escutar.

Muita gente quer opinar. Pouca gente quer dialogar.

Muita gente quer se destacar. Raríssimos querem colaborar.

Então, num mundo de 8,3 bilhões de vozes, quase todo mundo mira na mesma brecha.

A brecha é ser rico, ser famoso, ser poderoso, ser bonito, ser eternamente jovem, parecer sempre atual.

Ora, ninguém quer a brecha do brechó.

Ou seria o brechó da brecha?

Tem um monte de brecha empoeirada lá à qual quase ninguém dá atenção.

Por exemplo, falar de cordialidade, família, generosidade, perdão, amizade, sinceridade, simplicidade, gentileza... tudo isso é uma brecha que está claramente livre para muitas vozes passarem, mas pela qual quase ninguém se interessa.

Decidi, após anos de inconformidade com o som alto das vozes dominantes, que eu queria falar dessa brecha aí que ninguém mais enxerga: a do bem viver.

Cansei de vídeos intermináveis sobre a próxima dica de beleza, incentivando o corpo perfeito, a rotina de skin care da moda ou o novo tratamento milionário da juventude eterna. Propaganda patrocinada disfarçada de “usei, testei e quero compartilhar com você essa super dica!”. Sem contar as mil combinações de roupas para comunicar às pessoas certas que você é o sucesso empacotado em 10% de algodão e 90% de elastano.

Estou farto de novos escândalos políticos. Ou ainda não percebemos que isso é tudo um déjà-vu?

O escândalo parece sempre novo, mas o ciclo se repete. E não é apenas a corrupção que retorna. Nosso conformismo diante dela também.

Nós nos surpreendemos hoje com o político corrupto para, amanhã, voltarmos normalmente aos nossos afazeres. A memória curta de todos nós dá brecha para outro corrupto se apresentar no futuro e iludir novamente nossa esperança de um novo tempo, um novo político, um novo homem bom para o próximo mandato.

Estou farto de vídeos de riqueza. Certa vez, em meus estudos de marketing, me disseram que curso bom tem que prometer faturamento. Porque todo mundo supostamente quer comprar cursos que ensinam a ganhar dinheiro.

Eu sei que isso é importante. Eu mesmo já comprei curso pra aprender a ganhar dinheiro. O problema é que muita gente ensina a ganhar dinheiro, mas quase ninguém percebe como somos levados a acreditar que precisamos ganhar cada vez mais por causa de um sistema que nos estimula incessantemente a consumir.

A roupa não serve por dois anos porque saiu da moda. O celular do ano passado já parece velho quando surge o lançamento deste ano. Móveis que antes duravam gerações hoje, depois de três anos, estouram todo o MDF. Compramos como duráveis produtos que parecem feitos para não durar. Então, é claro que estamos sempre precisando de dinheiro para comprar a última geração de tudo.

E é aqui que questiono minha própria pergunta e a refaço:

“Onde estão as vozes comuns que já estão mudando alguma coisa no mundo?”

O Todo-Poderoso Algoritmo

Para encontrá-las, é necessário vencer a voz do Todo-Poderoso Algoritmo.

Ele diz o que você vai ver. Dá play no vídeo que você nem mesmo queria assistir. Sugere coisas de que você gosta. Mostra a você a “verdade”. Será?

A real é que o Todo-Poderoso Você-Sabe-Quem entende seu padrão. Condiciona você. Quando menos espera, é ele que dita a sua opinião.

Para ter senso crítico, é necessário dialogar. Conhecer perspectivas diferentes. Ponderar. Depois, decidir. Por fim, posicionar-se!

As vozes que conseguem transpor o ruído têm algo em comum: decidiram aguentar o peso da própria autenticidade, mesmo sob o julgamento dos outros.

Porque autenticidade talvez não seja algo que simplesmente se tem. Autenticidade é algo que você banca.

E bancar essa autenticidade é, ao mesmo tempo, encontrar uma brecha e ter coragem de ocupá-la.

Vi pessoas que recusaram a ditadura da beleza e da juventude eterna para sorrir com suas rugas.

Vi gente comum compartilhando os talentos que recebeu do céu, resistindo ao julgamento das vozes robotizadas pelo algoritmo.

O senso comum não impediu essas pessoas de continuarem espalhando autenticidade.

Essa gente está por aí.

Essas vozes autênticas estão fazendo soar notas suaves que somente ouvidos atentos conseguem captar.

Da voz para o ouvido

E volto ao ponto quase clichê de que a gente só escuta aquilo que quer ouvir.

Por isso, da voz... desloco minha análise para o ouvido.

“Como está o ouvido daqueles que anseiam mudar alguma coisa no mundo?”

Mas o ouvido é o instrumento do coração.

E deixo a pergunta:

“Como está o coração daqueles que anseiam mudar alguma coisa no mundo?”

“A voz de uma pessoa comum pode mudar alguma coisa no mundo?”

Pode. Já sabemos.

Mas mudar o mundo com a voz não é uma questão de falar mais alto.

É abrir, no meio do ruído, uma brecha capaz de alcançar quem ainda tenha coração para escutá-la. Porque, quando uma voz finalmente encontra outra pessoa, ela continua sendo apenas uma, mas definitivamente deixa de estar só.


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