Jogo de búzios: como funciona uma consulta e o que os búzios revelam

Como 16 conchas sem desenhos conseguem produzir uma mensagem? Entenda o que é o jogo de búzios e veja, passo a passo, como funciona uma consulta aos Orixás por meio dos búzios.

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Profe' Wayner Lyra ao lado de uma esteira, chamada de Até Orixá, com 16 búzios usados no jogo de búzios.
O jogo de 16 búzios é um sistema oracular ligado às tradições dos Orixás. Neste artigo, explico como funciona uma consulta a partir da tradição que eu pratico, o Culto Tradicional Iorubá.

O jogo de búzios é um dos oráculos mais conhecidos no Brasil. Muita gente já ouviu alguém dizer que “jogou búzios”, recebeu uma orientação dos Orixás ou descobriu alguma coisa importante sobre a própria vida por meio de uma consulta.

Mas existe uma pergunta que sempre aparece quando tento explicar esse oráculo para quem está acostumado com Tarot ou Baralho Cigano:

Como é que a gente vê alguma coisa nos búzios se eles não têm figurinha nenhuma?

Por exemplo, olhe para uma carta de Tarot. Ela é cheia de figuras, símbolos e marquinhas. Tem personagem, objetos, números e naipes.

No Baralho Cigano acontece algo parecido. Você olha para a carta e encontra um Cavaleiro, um Trevo, um Navio, uma Casa. Você estuda esses símbolos, seus significados e os combina com o das demais cartas, né? No caso da minha metodologia na Escola Aurora do Tarot eu nem te proponho decorar nada. Você ainda usa as referências pessoais que você traz daqueles símbolos. Por exemplo, Ratos, carta 23, que as pessoas naturalmente remetem a asco, nojo, esgostos, sujeiras. Ou seja, o símbolo por si só faz a maior parte do trabalho interpretativo.

Mas e no jogo de búzios?

Você olha e encontra aquelas conhas apenas. Socorro!!!

Não existe uma figura impressa para interpretar. Misericórdia!!!

Então como uma pessoa se senta diante de um jogo de búzios e recebe uma mensagem sobre sua vida?

É isso que quero explicar neste artigo.

Não pretendo aqui ensinar você a jogar búzios com apenas alguns minutos de leitura. Quero fazer aquilo que procurei fazer quando dei a aula que deu origem a este texto: mostrar o jogo de búzios por dentro.

Se você gosta de oráculos, estuda Tarot, Baralho Cigano ou simplesmente tem curiosidade sobre o assunto, quero que termine este artigo entendendo como uma consulta funciona, o que são os Odù e como aquelas conchas conseguem produzir uma mensagem para quem está se consultando.

Em poucas palavras: no sistema que pratico, 16 búzios são lançados e suas quedas revelam Odù. A partir desses Odù e de outras etapas da consulta, investigamos a condição em que a mensagem se apresenta e buscamos, nas histórias e ensinamentos preservados pela tradição, aquilo que está sendo recontado na vida do consulente.

Prefere assistir a esta explicação em vídeo?

Este artigo nasceu de uma aula que dei sobre o funcionamento do jogo de búzios.

Se você prefere acompanhar a explicação visualmente, pode assistir à aula completa no meu canal do YouTube:

JOGO DE BÚZIOS | Como ele revela o destino humano

Nesta aula do YouTube eu conto como eu conduzo uma leitura de Búzios. Assista em video.

Antes, vou te dar um pouco de contexto sobre como comecei a ler búzios.

O jogo de búzios chegou na minha vida, evidentemente, como um jogo que eu sabia que pais e mães de santo jogavam. Fiz minha primeira consulta de búzios mais ou menos em 2006, numa viagem que fiz a Manaus, minha cidade natal.

Alguns anos depois, em 2009, quando estava cursando uma disciplina de Antropologia na Universidade de São Paulo, conheci o Candomblé. Fui atendido por um sacerdote que jogou para mim. E isso me levaria a no ano seguinte, 2010, me iniciar no Candomblé para o Orixá Oxum.

A partir daquele ano, meu contato com o jogo era nao mais como cliente e sim como iniciado no culto aos Orixás. Contudo, eu nunca tinha pensado na possibidade de aprender a jogar com búzios porque eu nem mesmo tinha casa de santo, nem tempo iniciático suficiente e muito menos quem me ensinasse.

Porém, o meu maior desafio era pensar que um oráculo sem figurinhas como as das cartas, seria realmente para mim um obstáculo instransponível. E foi assim que nos anos seguintes me dediquei exclusivamente aos oráculos de imagens.

Após alguns anos, encerrei meus vínculos com o Candomblé. Fui para a Magia do Tarot e quando terminei essa fase mágica dentro da Ordem que eu fazia parte, os orixás voltaram ao centro do meu caminho espiritual.

Foi naquele momento, já com a Escola Aurora com mais de 8 anos em atividade, com minha experiência de professor de oráculos que eu tomei a decisão de estudar um oráculo que me desafiasse: o jogo de búzios.

Ao mesmo tempo, esse desafio cumpria três funções na minha vida. Primeiramente, porque é um oráculo que fala diretamente com minha fé. E isso já me fazia amá-lo. Além disso, é um oráculo que não tinha nada a ver com o sistema divinatório em que eu me especializei e dominei anteriormente. Ou seja, eu comecei nos búzios do absoluto zero. Portanto, ele representava um excelente desafio profissional para mim até então. E, por último, é um oráculo que combate o racismo religioso. Estudar, atender e promover o saber dos oráculos africanos é combater uma estrutura racista que também atravessa o ocultismo, o misticimo e a divinação no Brasil.

E foi assim que eu pensei: "É isso! Eu preciso aprender a ler búzios."

Afinal, o que é o jogo de búzios?

O jogo de búzios é, tal como o Tarot e o Baralho Cigano, um oráculo.E não é o único de África.

Muitos outros países africanos possuem sistemas incríveis de divinação. E a própria nigéria iorubá tem outro sistema, chamado de Ifá, ainda muito mais complexo do que o próprio sistema do jogo de 16 búzios.

Então, comparando com as cartas, existem diferenças estruturais gigantescas entre elas e os búzios.

Uma das primeiras é a origem.

Tarot e Baralho Cigano são sistemas de origem europeia. O jogo de 16 búzios que estou apresentando aqui está ligado ao conhecimento do povo iorubá, na África, e às tradições dos Orixás.

O povo iorubá deixou muitas heranças culturais no Brasil. Entre elas está também um sistema oracular que utiliza 16 búzios.

Esse sistema é conhecido como Ẹ̀rìndílógún, ou Mẹ́rìndínlógún, o jogo de 16 búzios. Essa palavra significa literalmente 'dezesseis'.

E já podemos anotar uma primeira informação importante:

16.

São 16 búzios no jogo.

Curiosidade: O jogador de búzios, ao receber seu kit oracular, ganha um número maior de conchas, algo como 20 ou 21 unidades. Caso alguma se perca com os anos de trabalho, ele terá alguns a mais para repor o jogo. Porém eles não serão lançados durante a consulta. O número será sempre dezesseis.

Ah, e isso não tem absolutamente nada a ver com a Torre ser o Arcano XVI do Tarot, ok?

O número 16 é o número 16. A Torre é a Torre. Os 16 búzios são outra coisa.

Parece brincadeira, mas essa comparação ajuda a perceber uma questão importante: não devemos tentar explicar um sistema inteiro usando as regras do outro.

O jogo de búzios tem sua própria lógica.

Existem diferentes maneiras de jogar búzios

Quando alguém diz “eu jogo búzios”, isso ainda não explica exatamente como aquela pessoa joga.

Existem jogos que utilizam diferentes quantidades de búzios. Além disso, existem diferentes tradições e diferentes maneiras de trabalhar com eles.

Quem me segue e/ou estuda, por exemplo, Baralho Cigano comigo já conhece uma comparação que ajuda bastante.

No Baralho Cigano existem escolas diferentes. Uma pessoa pode aprender determinadas cartas de uma maneira e outra pessoa pode aprender de outra. Eu mesmo costumo dizer que quem estuda comigo aprende a “Escola do Profe” ou Metodologia Aurora de Baralho Cigano, que conversa tanto com elementos encontrados na chamada escola brasileira quanto na europeia mas é baseada na nossa Tradição de Tarot iniciada por Roberto Caldeira nos anos 1990.

No jogo de búzios acontece algo parecido.

Existem muitas escolas ou também chamadas de tradições.

Embora seja um oráculo africano, no Brasil encontramos formas totalmente brasileiras desse jogo. Alguns usam formas que misturam elementos encontrados no Brasil e em África. E há ainda tradições de jogo exatamente como as encontradas na Nigéria.

Por isso, uma das primeiras coisas que lhe digo é:

o jogo de búzios que estou mostrando não é uma regra universal.

É a forma como aprendi e a forma como aplico nas minhas consultas.

Se você jogar com outra pessoa, ela não necessariamente fará tudo exatamente do mesmo jeito.

E está tudo certo.

Por que existem tantas escolas de jogo de búzios?

Para compreender isso, precisamos falar sobre oralidade.

Quem estuda Tarot está acostumado a estudar em livros.

Quer saber o significado de uma carta?

Livro.

Quer comparar interpretações?

Livro.

Quer estudar história do Tarot?

Mais livros.

Grande parte do conhecimento europeu sobre esses oráculos chegou até nós por meio da escrita.

E mesmo com todo esse material escrito, não existe até hoje um padrão universal de consulta de Tarot. As cartas podem até ter os mesmos nomes, mas as tiragens dos arcanos são muito variadas.

Com o jogo de búzios, a transmissão aconteceu durante muito tempo de outra maneira.

De boca a ouvido.

Tradicionalmente, sacerdotes e sacerdotisas transmitiam conhecimentos aos seus iniciados dentro de suas próprias comunidades religiosas. No caso do Brasil, o terreiro tem um papel fundamental.

A pessoa aprendia o jeito de jogar daquela tradição em que ela estava inserida, com as particularidades daquela família religiosa e, quando preparada para isso, poderia aprender também ensinar o jogo de búzios para seus filhos de santo. Consequetemente, esse conhecimento continuava sendo transmitido geração a geração.

É justamente por isso que quem tem uma cabeça muito acostumada a aprender tudo por livro pode sofrer um pouco quando começa a pesquisar búzios.

Você vai a um lugar e vê de um jeito.

Vai a outro e encontra outro.

Conversa com uma pessoa e ela aprendeu uma coisa.

Conversa com outra e ela aprendeu diferente.

Isso não significa necessariamente que uma esteja certa e a outra errada.

Estamos diante de tradições em que grande parte do conhecimento foi preservada durante muito tempo principalmente pela oralidade. E isso também é resistência.

É daí que vêm muitas dessas diferenças.

E por que quem estuda cartas deveria entender alguma coisa sobre búzios?

Essa pergunta também é importante.

Eu ensino Tarot e Baralho Cigano. Mas isso não significa que um cartomante precise viver numa ilha em que só existem cartas.

Se você atende pessoas, cedo ou tarde alguém vai sentar diante de você e dizer:

“Eu já joguei búzios e me disseram isso.”

E você vai ficar olhando para a cara dela sem saber o que ela está querendo dizer?

Se estudamos oráculos, acredito que é importante conhecer minimamente outros sistemas divinatórios.

Até porque o jogo de búzios é muito utilizado no Brasil e, ao mesmo tempo, ainda sofre com muita ignorância e muito preconceito.

Já ouvi gente me perguntar se eu jogava “aquelas coisas mais pesadas”.

A pessoa se referia a jogar búzios.

E eu respondia:

“Pesado? Se for pelo peso, o bloco de cartas de Tarot pesa mais.” hahaha

A pessoa ficava me olhando sem entender.

Por trás da brincadeira existe uma questão séria.

Existe ainda muito preconceito dirigido às tradições de origem africana e aos seus sistemas oraculares.

Pense que se os oráculos europeus como Tarot e Baralho Cigano já são marginalizados tanto pela Ciência quanto pelas Religiões hegemônicas, imagine os oráculos africanos!

A verdade é que não faz sentido gostar de cartomancia e ao mesmo tempo ter preconceito com búzios.

Conhecer o jogo de búzios também é uma maneira de parar de tratá-lo como uma coisa negativa, assustadora ou “pesada” simplesmente porque não conhecemos sua lógica.

Qualquer pessoa pode se consultar com búzios?

Sim.

Aqui precisamos separar duas coisas:

ser consulente e ser jogador de búzios.

Não são a mesma coisa, é claro.

Para se consultar, você encontra uma pessoa de sua confiança, marca o atendimento e faz a consulta. Nesse sentido, funciona como acontece com outros atendimentos oraculares.

Você não precisa fazer parte da religião daquela pessoa para ser atendido por ela.

Na tradição que pratico, que é o Culto Tradicional Iorubá e na maioria das outras tradições porém, jogar búzios está ligado à relação do jogador com os Orixás.

Falando em Culto Tradicional Iorubá, volto em um post futuro para falar sobre isso, ok?

Voltando ao assunto...

E isso faz uma diferença gigantesca em relação ao Tarot.

O jogo de búzios está conectado a um panteão de divindades, os Orixás.

Durante o jogo, estamos procurando saber o que os Orixás estão dizendo.

Por isso, na maneira como aprendi, não faz sentido pensar no jogador completamente separado dessa relação religiosa.

Eu resumiria assim:

todo mundo pode se consultar com o jogo de búzios. Mas jogar búzios é outra história.

Então é diferente de aprender Tarot?

É.

Historicamente, no Brasil, o jogo de búzios esteve muito ligado às comunidades religiosas.

Em muitas casas, esse conhecimento ficava principalmente nas mãos dos dirigentes (pais e mães de santo) e das pessoas mais antigas que estavam sendo preparadas para assumir determinadas funções, como a de abrir futuramente a sua própria comunidade ou casa de santo.

Não era simplesmente chegar ao terreiro e dizer:

“Boa tarde, vim fazer a aula de búzios.”

O conhecimento era transmitido dentro de uma formação religiosa.

Hoje existem também cursos, materiais escritos e outras formas de transmissão. Ainda assim, é importante conhecer esse contexto para entender por que estamos diante de um sistema profundamente ligado à tradição religiosa e à oralidade.

O jogo que eu uso é consagrado

Quando mostrei os búzios durante a aula lá no YouTube, fiz questão de explicar uma coisa.

Aquele jogo que eu estava segurando era um jogo cenográfico.

Ou seja, servia para mostrar fisicamente como os búzios são, mas não era o meu jogo utilizado nos atendimentos.

O jogo com que trabalho é consagrado.

Aqui encontramos outra diferença importante em relação às cartas.

Tarot e Baralho Cigano não são, em sua origem, oráculos pertencentes a uma religião específica. Por isso, consagrar ou não um baralho pode fazer parte da prática pessoal de cada cartomante.

Eu mesmo gosto de fazer determinadas práticas com os meus.

Mas isso é outra coisa.

No sistema de búzios que pratico, a consagração faz parte da própria estrutura religiosa do jogo.

O jogador também passa por uma preparação ritual.

Portanto, não estamos simplesmente falando de comprar 16 conchas, colocá-las numa mesa e começar a jogar. Os instrumentos do jogo passam, junto com o futuro dono daqueles búzios, por um ritual de três dias chamado Òrìṣà Wiwẹ. Algo como limpeza/consagração do jogo. E o objetivo desse ritual é ser reconhecido pelas divindades como um legítimo jogador de búzios.

Volta dizer algo importante: nem todo reconhecido jogador de búzios passou por esse ritual porque as tradições variam de lugar para lugar, ok? Em geral, cada tradição vai dizer qual é o rito que trouxe legitimidade para aquela pessoa.

O mais importante é você saber que ninguém deve comprar búzios aleatoriamente numa loja e sair divinando com eles. Diferentemente, se formos a uma loja esotérica e comprarmos um deck de Tarot, ele já vem pronto para usar, né? Eu brinco dizendo que Tarot já vem com as pilhas embutidas.

Quais são os instrumentos do Jogo de Búzios?

Para você visualizar o sistema, podemos começar com três elementos principais:

  1. os 16 búzios;
  2. a superfície sobre a qual eles são lançados (esteira de palha);
  3. os ìbò (pronuncia-se ibô), objetos auxiliares utilizados em determinadas perguntas durante a consulta.
Búzios abertos e fechados dispostos sobre uma esteira circular de palha colorida, vista de cima sobre fundo branco.
Jogo de búzios (ẹ̀rìndínlógún) sobre esteira tradicional, atẹ orisà. Fotografia do acervo pessoal do Profe’, com tratamento e aprimoramento visual por IA generativa.

Na tradição que sigo, os búzios são lançados sobre uma esteira, chamada de atẹ orisà. Mas há quem jogue em cima de pano.

Os ìbò, que também chamo de mensageiros, podem ser representados por diferentes objetos.

Entre os exemplos que mostrei estavam búzios, um osso, um caco de louça, uma pedra de rio e uma semente. Ver minuto 42:30 da aula de Búzios do Youtube acima citada. Link aqui.

Aliás, o caco de louça que mostrei na aula tinha uma história muito sofisticada.

Um prato caiu e quebrou em casa.

Iam jogar fora.

Eu disse:

“Não! Para!”

E guardei.

Casa de bruxa é isso: o prato quebra, vira oráculo. Hahaha

Mas não se preocupe em decorar esses objetos agora.

Para entender a estrutura básica, guarde apenas isto:

16 búzios + superfície de lançamento (atẹ orisà) + ìbò.

Com isso já conseguimos começar a visualizar o que acontece numa consulta.

Como um búzio pode cair?

Cada búzio pode cair mostrando um de seus dois lados.

Na tradição que pratico, um deles é considerado aberto e o outro fechado.

Dois búzios sobre uma esteira circular de palha colorida, um mostrando uma face e o outro a face oposta, para ilustrar as posições de búzio aberto e fechado no jogo de búzios.
Búzio aberto e búzio fechado: as duas posições possíveis consideradas na leitura de uma caída do jogo de búzios (ẹ̀rìndínlógún). NOTA: dependendo da tradição, essa configuração se inverte. Imagem ilustrativa produzida com IA generativa a partir de fotografia do acervo pessoal do Profe’.

Quando os 16 búzios são lançados, alguns podem cair abertos e outros fechados.

Então contamos.

Um aberto.

Dois abertos.

Três.

Quatro.

Cinco.

E assim por diante.

É essa queda que começa a formar a linguagem do jogo.

Não estamos olhando para uma concha e dizendo:

“Isso aqui parece uma Casa.”

“Isso aqui parece uma Lua.”

Não existe isso.

O que interessa é a configuração produzida pelo conjunto dos búzios.

E é aqui que chegamos a uma palavra fundamental para compreender o sistema:

Odù.

O que é Odù no jogo de búzios?

Vou usar uma comparação que sempre faço em aula porque ela ajuda muito quem vem do Tarot ou do Baralho Cigano.

Você embaralha o Tarot e tira uma carta.

Sai o Louco.

Sai a Lua.

Sai o Sol.

No Baralho Cigano, sai o Cavaleiro, o Trevo, o Navio.

Quando lançamos os 16 búzios, a queda corresponde a um Odù.

Então, para você entender inicialmente a mecânica, pense no Odù como algo que ocupa, didaticamente, o lugar que uma carta ocuparia numa leitura.

Eu disse didaticamente.

Não estou dizendo que Odù é uma carta.

É uma comparação para você conseguir enxergar a estrutura.

Os búzios caem.

Contamos a queda.

Identificamos o Odù.

E esse Odù abre um conjunto de conhecimentos que o sacerdote ou a sacerdotisa precisa previamente já conhecer.

Quantas quedas são possíveis?

Com 16 búzios, podemos ter diferentes quantidades de búzios abertos, inclusive a situação em que todos caem fechados.

Fisicamente, portanto, temos 17 possibilidades de queda, contando de zero a dezesseis búzios abertos.

Mas isso não significa que todas sejam interpretadas da mesma maneira.

Na tradição que pratico, as quedas utilizadas para a leitura dos Odù vão de um a doze búzios abertos.

Determinadas configurações acima de 12 búzios abertos e a queda com todos os búzios fechados interrompem a consulta dentro desse sistema.

Não vou entrar aqui nos nomes e procedimentos relacionados a essas configurações porque nosso objetivo aqui não é aprender a jogar.

Quero que você entenda como o mecanismo funciona.

E, para isso, já temos o essencial:

os búzios são lançados → a queda é identificada → a queda conduz a um Odù.

Agora precisamos descobrir o que fazemos com ele.

Vamos conhecer Teresinha

Precisamos de uma cliente imaginária.

Então vamos pensar na nossa querida Teresinha.

Teresinha é fictícia.

Ela gostou de um pai ou de uma mãe de santo, marcou um horário, pagou sua consulta e chegou com uma questão importante na vida.

Por exemplo, ela chega com um desafio de vida bem específico: Teresinha queria muito ter filhos e estava enfrentando dificuldades para realizar esse sonho.

Esse é apenas um exemplo didático para acompanharmos a mecânica do jogo. Uma orientação espiritual sobre uma questão como fertilidade não substitui, evidentemente, acompanhamento médico adequado.

Teresinha chega.

O sacerdote inicia os procedimentos da consulta.

Na tradição que pratico, existem orações e invocações específicas. O consulente é apresentado durante essas orações.

Depois disso, os búzios são lançados.

Cai um Odù.

O jogo é lançado novamente.

Cai outro.

E novamente.

Temos então uma sequência.

Na forma que pratico, trabalhamos inicialmente com três Odù.

O primeiro Odù é o mais importante

Os três Odù juntos trazem informações. É o método.

Mas o primeiro Odù é o que ocupa a posição mais relevante.

É ele que estabelece o eixo principal da mensagem do Orixá para aquele consulente.

Os demais complementam aquilo que apareceu.

Usando novamente o mundo das cartas: é como se o primeiro Odù fosse a primeira carta virada, aquela que traz a resposta fundamental.

Os outros ajudam a construir o enredo.

Portanto, já temos uma sequência.

Mas ainda falta uma pergunta importantíssima:

esse jogo veio em condição favorável ou desfavorável?

É aí que entram aqueles objetos de que falei anteriormente.

Os ìbò.

O jogo veio favorável ou desfavorável?

Depois que os Odù aparecem, utilizamos os ìbò para aprofundar a investigação.

Na tradição que pratico, podemos identificar uma condição favorável, ìrè, ou uma condição desfavorável, ibi.

Mas descobrir isso ainda não encerra a consulta.

Imagine que o jogo de Teresinha tenha vindo favorável.

A próxima pergunta é:

favorável em quê?

Existem muitos exemplos de positividades (ìrè) tais como longevidade, saúde, filhos, riqueza ou vitória.

Se o jogo vier numa condição desfavorável (ibi), também investigamos a natureza daquela dificuldade.

Ela pode estar relacionada a perdas, conflitos, dificuldades materiais ou outras questões.

Futuramente trarei um post somente para falar de ìrè e ibi, ok?

Ou seja, o jogo de uma pessoa pode vir com positividades ou negatividades. Depois disso, o adivinho apura qual positividade ou qual negatividade está na vida daquele cliente.

Perceba o movimento:

Odù → condição positiva ou negativa → natureza dessa condição.

A investigação vai ficando cada vez mais específica.

E é justamente aqui que chegamos à parte que considero uma das mais fascinantes do jogo de búzios.

Se os búzios não têm desenhos, onde está a mensagem?

Volte ao Tarot.

Pegue uma carta como a Lua.

Existe uma cena diante de você.

Há símbolos.

Há imagens.

Você olha para a carta e parte daquele repertório de sentidos está visível.

No jogo de búzios, não.

Está tudo praticamente monocromático.

Não tem desenho. Socorro!! kkk

Então onde está o significado do “arcano”?

Como saber a mensagem do Odù?

Na memória.

Na memória do sacerdote ou da sacerdotisa.

E aqui está o ponto crítico que diferencia esse oráculo em relação ao processo interpretativo da cartomancia.

Os Odù estão relacionados a histórias, versos e ensinamentos transmitidos oralmente dentro da tradição.

O jogador precisa aprender essas histórias.

Precisa ouvi-las.

Precisa memorizá-las.

Precisa saber quais orientações aparecem nelas.

E precisa conseguir reconhecer, durante a consulta, qual dessas histórias está sendo recontada na vida daquela pessoa.

É por isso que o jogo de búzios exige tanto treinamento de memória e de ouvido.

É por isso que eu digo uma frase que, para mim, resume muito bem esse sistema:

O jogo de búzios é como se fosse um baralho inteiro de histórias na memória.

No Tarot, você olha para a carta.

Nos búzios, grande parte desse repertório precisa estar dentro do adivinho.

Fascinante, né?

Como uma história antiga aparece na vida de alguém hoje?

Voltemos para o exemplo da consulta imaginária de Teresinha.

Ela chegou à consulta com uma questão relacionada ao desejo de ter filhos.

Os búzios foram lançados.

Apareceram os Odù.

O jogo veio em determinada condição.

A investigação indicou o assunto relacionado àquela condição.

Agora o sacerdote precisa se lembrar:

qual história existe dentro daquele primeiro Odù que conversa com essa situação?

Ele precisou antes estudar e memorizar várias histórias para cada Odù.

Ou seja, como um adivinho de búzios entende a mensagem daquele Odù?

Cruzando os dados da consulta que caiu para determinado cliente com a história mais próxima possível das centenas de histórias memorizadas por ele, transmitidas oralmente geração a geração.

Voltando ao exemplo...

É contado naquele Odù que caiu para Teresinha, a história sobre uma mulher que também desejava ter filhos mas que não conseguia.

Essa mulher da história recebeu determinadas orientações dos adivinhos.

A história fala de sua situação, das orientações recebidas, dos Orixás relacionados àquele problema e daquilo que ela deveria fazer.

E então acontece aquilo que considero mágico:

a pessoa está vivendo a mesma história na vida dela.

Não significa que Teresinha seja literalmente aquela personagem.

Significa que uma experiência humana preservada numa narrativa ancestral encontra correspondência na situação vivida pela consulente.

É assim que o jogo começa a falar.

Talvez Jung chamasse isso de sincronicidade...

Eu chamo de Axé!

As histórias dos seres humanos se repetem

Essa é uma das ideias que mais me encantam nesse oráculo.

As histórias humanas se repetem.

Se repetem.

Se repetem.

Alguém deseja ter filhos.

Alguém procura prosperidade.

Alguém enfrenta conflitos.

Alguém está perdido.

Alguém precisa encontrar um caminho.

Alguém precisa mudar a própria maneira de agir.

A pessoa que está sentada diante do jogo hoje vive no nosso tempo.

Mas aquela dificuldade humana pode encontrar correspondência numa história preservada há gerações.

É por isso que o Odù não é apenas um número produzido pela queda dos búzios.

Ele abre uma história.

E aquela história ajuda o sacerdote a compreender aquilo que está acontecendo na vida do consulente.

Então o oráculo está na memória do adivinho?

Durante a aula lá no YouTube, alguém comentou:

“O oráculo é o próprio oraculista.”

E eu respondi:

Exato.

Isso não significa que os búzios sejam dispensáveis.

Significa que as conchas, sozinhas, não contam as histórias.

O sacerdote ou a sacerdotisa precisa carregar esse repertório.

Precisa treinar a memória por anos.

Precisa treinar o ouvido.

Precisa aprender as histórias.

Precisa conhecer as orientações associadas a elas.

É um trabalho de estudo e transmissão.

Por isso o jogo de búzios é absolutamente complexo.

Quando uma carta de Tarot aparece diante de mim, eu tenho uma cena.

Quando um Odù aparece nos búzios, a cena precisa ser recuperada do conhecimento que foi transmitido.

O “arcano” está na memória.

O jogo de búzios é jogado por Odù ou por Orixá?

Aqui existe outra diferença entre escolas.

No Brasil, você pode encontrar pessoas que trabalham com sistemas em que determinadas quedas são diretamente relacionadas a determinados Orixás.

Uma queda corresponde a Oxum.

Outra corresponde a Ogum.

E assim por diante.

Na forma que pratico, eu jogo por Odù.

Isso é importante porque explica todo o processo que estamos acompanhando.

Eu identifico os Odù.

Investigo a condição do jogo.

Identifico o assunto.

E então preciso me lembrar das histórias daquele primeiro Odù que caiu.

É dentro desse repertório que encontramos a narrativa que está sendo recontada na vida daquela pessoa.

Depois disso, outras perguntas podem ser feitas para confirmar quais orientações, Orixás e procedimentos estão relacionados àquela situação.

Mas essa já é a próxima camada do jogo.

O jogo de búzios serve para saber o que o Gerald está fazendo?

Aqui existe uma diferença importante entre a maneira como uso os búzios e como uso os meus jogos de cartas.

Imagine que você queira saber:

“Profe, o Gerald está pensando em mim?”

“Ele vai responder meu WhatsApp?”

“Ele está fazendo o quê?”

Para esse tipo de pergunta, eu recomendaria muito mais facilmente um jogo de cartas.

Pense num mapa astral.

Você marcaria uma consulta de astrologia para perguntar se Gerald vai responder seu zap?

Não faz sentido.

O mapa é seu.

Na tradição de búzios que pratico, acontece algo parecido.

O jogo é muito direcionado a você, ao seu Orí, à sua cabeça, à sua vida e ao seu destino.

Isso não significa que relacionamentos não possam aparecer.

Eu posso perguntar aos Orixás, por exemplo:

“Essa pessoa é boa para o meu destino?”

Percebe a diferença?

O centro da pergunta continua sendo o caminho do consulente.

O jogo de búzios ajuda você a olhar para a sua existência.

E é exatamente aqui que começamos a enxergar o grande diferencial desse oráculo.

Como funciona uma consulta de búzios comigo, passo a passo?

Agora que você já conhece as peças, podemos enxergar o percurso inteiro sem complicação:

  1. Você chega com uma questão da sua vida.
  2. Realizo as orações, invocações e procedimentos próprios da tradição que pratico.
  3. Os 16 búzios são lançados e as quedas revelam os Odù.
  4. O primeiro Odù estabelece o eixo principal da mensagem e os demais ajudam a construir o enredo.
  5. Os ìbò ajudam a investigar a condição em que a mensagem aparece e a natureza dessa condição, positiva ou negativa.
  6. A partir dos Odù, procuro no repertório aprendido as histórias e ensinamentos relacionados à situação apresentada.
  7. A história ancestral ajuda a interpretar aquilo que está acontecendo na vida do consulente.

É assim que um conjunto de conchas aparentemente sem imagens consegue produzir uma mensagem.

A imagem não está impressa no búzio.

A história está preservada no conhecimento dos Odù e na memória de quem aprendeu a interpretá-los.

O jogo de búzios prevê o futuro?

O jogo pode falar de acontecimentos, caminhos, dificuldades, possibilidades e consequências.

Mas, na maneira como pratico, reduzir o jogo de búzios a “prever o futuro” seria perder justamente uma de suas características mais importantes.

Porque depois de compreender o que está acontecendo, aparece outra pergunta:

o que pode ser feito diante disso?

É nesse momento que entramos numa camada mais profunda do sistema.

Quais forças podem ajudar?

Há alguma orientação de comportamento?

Existe alguma ação ritual indicada?

Existe um Orixá relacionado àquela situação?

Qual meu Orixá de cabeça?

Existe algum ritual a ser feito após a consulta?

Essa dimensão é tão importante que merece um artigo próprio. E em breve eu volto com ele aqui para você.

Recado importante:

Como disse ao longo de todo o texto, existem muitas formas de jogar os búzios e partilhei aqui a forma como eu jogo. Quero dizer que se você aprendeu de modo diferente de mim, o seu jeito de jogar é parte de um conjunto grande de variações tanto de tradições como de métodos para atribuir sentido às leituras dos búzios. Não há um jeito único. E isso é maravilhoso! Acredito que o mais importante é, enquanto estudiosos de oráculos, nos unirmos para fortalecer o conhecimento divinatório e propagar a beleza da arte oracular para mais e mais pessoas.

Quer jogar búzios comigo?

Se você chegou até aqui porque queria entender como funciona o meu jogo de búzios, agora já sabe que a consulta olha principalmente para você: seu Orí, sua vida, seus caminhos e as questões que fazem parte do seu destino.

Eu realizo consultas individuais seguindo a tradição que apresentei neste artigo.

Se você sente que chegou o momento de olhar para uma questão da sua vida por meio dos búzios, fale com a minha equipe para saber como funciona o atendimento e agendar sua consulta.

QUERO JOGAR BÚZIOS COM O PROFE

Depois que os búzios respondem, o que acontece?

Entender como os búzios produzem uma resposta é apenas a primeira parte.

Depois que os Odù aparecem e começamos a reconhecer a história que está sendo recontada na vida do consulente, surge uma pergunta ainda mais importante:

o que fazemos com essa resposta?

É aí que entram Orí, os Orixás, o ebó, os rituais, as orientações de comportamento e aquilo que eu costumo chamar, brincando, de “pedir ajuda aos universitários”.

Esse é o assunto da segunda parte deste guia.

CONTINUE LENDO: Odù, Orixás e ebó: o que acontece depois que os búzios respondem? (a ser publicado futuramente)

Referências e fontes

Este artigo foi elaborado a partir da minha aula “JOGO DE BÚZIOS | Como ele revela o destino humano”, originalmente publicada no YouTube.

LYRA, Wayner. JOGO DE BÚZIOS | Como ele revela o destino humano. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M7UYXLjNDLA.

Para quem deseja aprofundar o estudo do sistema de dezesseis búzios e de sua tradição de histórias iorubá de cada Odù, uma referência clássica é a obra do antropólogo William Bascom:

BASCOM, William. Sixteen cowries: Yoruba divination from Africa to the New World. Bloomington: Indiana University Press, 1980.

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Em resumo: como funciona o jogo de búzios?

Se este foi seu primeiro contato com o assunto, guarde estes pontos principais:

  • Jogo de búzios não é “Tarot com conchas”. É um sistema oracular próprio, ligado às tradições dos Orixás.
  • O sistema apresentado neste artigo é o Ẹ̀rìndílógún, realizado com 16 búzios.
  • Existem diferentes tradições e escolas de jogo. Estou explicando a maneira como aprendi e pratico, não estabelecendo uma regra universal.
  • Grande parte desse conhecimento foi historicamente transmitida pela oralidade, de boca a ouvido.
  • Qualquer pessoa pode procurar uma consulta, mas, na tradição que pratico, jogar búzios está ligado à formação religiosa e à relação do jogador com os Orixás.
  • Os búzios podem cair abertos ou fechados, e suas quedas permitem identificar os Odù.
  • Na minha forma de jogar, o primeiro Odù estabelece o eixo fundamental da mensagem e os demais ajudam a construir o enredo.
  • Os ìbò são os 'mensageiros'que ajudam a investigar a condição em que a mensagem se apresenta e a aprofundar aquilo que os Odù revelaram.
  • Um Odù não é simplesmente uma “carta sem desenho”. Ele está ligado a histórias, versos, ensinamentos e orientações preservados dentro da tradição.
  • Por isso digo que o jogo de búzios é como um baralho inteiro de histórias na memória.
  • Durante a consulta, procuramos reconhecer qual dessas histórias encontra correspondência naquilo que o consulente está vivendo.
  • Na tradição que pratico, o centro do jogo é o consulente, seu Orí, sua vida e seu destino, e não simplesmente descobrir o que outra pessoa está fazendo.
  • E a consulta não termina necessariamente quando compreendemos a mensagem. A próxima pergunta é o que fazer diante daquilo que foi revelado.

É justamente aí que começa a segunda parte desta conversa.